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16/11/2009 08:26





"Desencana desse drink, joga um limão"

"e vira?"

"é..."

"você tá bêbado"

"ora, quem não está?"

"não sei... os muçulmanos?"

"Vamos, vira isso logo, come esse limão"

"não sei, acho que vai me fazer mal"

"..."

"óquei" - vira o drink

"viu?"

"o que?"

"você comeu o limão"

"e daí?"

"queria ver um muçulmano comer isso. Eles não transam cítricos"

"vamos pra doutor arnaldo?"

"demorou"

(...)

"você me disse que essa festa era boa"

"e daí?"

"isso é uma merda, eu quero ir pra casa"

"bebe mais"

"óquei"

(...)

"essa festa continua uma merda"

"mas agora você tá bêbado"

"é, né?"

(...)

"vamos embora da doutor arnaldo?"

"demorou"

"sabe..."

"o quê?"

"nada, deixa pra lá"

"Óquei"












enviada por Mitsuo



10/11/2009 10:15




mexer o café com a colherzinha de prata. gosto sujo de óxido de prata.

em todos os gestos de todos os pedestres sua infelicidade óbvia travestida de cotidiano. toda a sombra revela uma tragédia discreta e só se pode escrever sobre o mesmo centenas de vezes. sobre o mesmo único tema: obviedade, arbitrariedade, crueldade

morfina, vinho e televisão. meus milos derretem no chão, o asfalto celebra fritando meu último traço de humanidade.

é em vão. é em vão.

de novo no quarto cercado. os livros me emparedaram. no chão as cartas espalhadas de Lavínia. mordo meus lábios. gosto de ferro.

o dia passa numa tosse seca, um martírio do pulmão. o barulho ensurdescedor dos carregadores. gosto de cimento amargo. tento escrever: cada palavra uma ode ao óbvio, cada linha escancarada de obviedade. releio meu clichê texto lugar comum engano horroroso. é em vão.

cada parágrafo um convite ao suicídio. como poderia ser tão inútil. mas é. descasque a cebola em busca da verdade, camada por camada, desvele no final, nada. e seus olhos são um mar de lágrimas.

releio minhas palavras:

E józio levantou-se e tentou enxergar para além do arame farpado
e viu apenas uma planície
e mais arame farpado

e deitou-se novamente no fundo lamacento de sua trincheira
pra respirar o gás
e nada mais.;






enviada por Mitsuo



02/11/2009 01:20

Schnee und Blut
im Schützengraben
Das ist der Große Krieg


enviada por Mitsuo



21/10/2009 23:15





Na pele da minha mão

vejo as veias

pulsando lentas




Tome meu braço

dê goles do vinho

por que estou narcótico?


Acordar numa madrugada silenciosa

pensar nos que estão agora a nascer

e nos que morrem


E nos dias inúteis

que esqueceremos

tacitamente.


nas gengivas crescem dentes

nos braços pelos

no jardim plantas

na cabeça sonhos

e pesadelos


O céu muda de cor durante a madrugada

penso nos outros insônes

e nos mortos.


Algumas palavras idiotas sempre voltam

e aquelas mais maravilhosas ficam presas

entaladas entre a lingua e os dentes

e viram uma fumaça rala de frustração.

Os olhos se secam

as lágrimas se grudam pra formar remela.


Dormi um dia um sono de pedra

sem sonhos.

Sempre que acordo me esqueço quem fui

mas a pele está mais fina

e as veias mais aparentes

como se quisessem um dia sair

a luz do dia.





enviada por Mitsuo



29/09/2009 12:41



Por que me chamas de amor, Lavígnia?

se quando leio essas palavras lágrimas me vem os olhos e as letras escritas por ti gradualmente se tornam turvas. Por que me escreve em francês e faz com que minha mente se encha de memórias dum longínquo inverno em Paris. A neve e a chuva naquele céu cinzento e todas essas memórias que doe tanto lembrar. E, tolo ainda fico em dúvida, Lavígnia. Se tuas palavras contém de fato um afeto profundo ou se são apenas teus olhos agúdos a me zombar. A incansavelmente zombar minha incansável ingenuídade, minha evidente fraqueza patética de homem mal crescido. Eu vejo esse teu olhar, Lavígnia. Vejo em minha mulher e em minha filha. Vejo os olhos semi-cerrados em cortante escárnio. Ou é mesmo afeto? Diga-me, Lavignia. Ou começo a pensar que são os dois, coexistindo em um terrível paradoxo. Sua voz doce e ácida. Como se pode viver com isso? Por favor, diga-me, Lavígnia. por que...





enviada por Mitsuo






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