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28/09/2009 11:42

Sim, Lavínia

eu escrevo por que sinto sua falta. Escrevo por que não sei onde está, com quem está. Gostaria de saber se ainda pensa em mim, se se lembra de mim, se é feliz. Eu penso em você muitas horas. Vejo seus lábios nos outros lábios, vejo seus olhos nos olhos de outras. Eu ouço sua voz Lavínia. E ela me diz coisas doces e coisas amargas. Eu escrevo cartas para você e coloco numa gaveta e penso que, uma vez escritas essas palavras podem se desprender de mim, e podem viver suas existências livres nessa gaveta escura. É um grande exercício de psicanálise. Tudo é um grande exercício de piscanálise Lavínia. Eu estou sempre andando pelas ruas estranhas dessa cidade e penso em muitas coisas. E vejo as pessoas que passam por mim e penso sobre o que elas devem estar pensando e sentindo. Penso sobre os sentidos e sobre todas as imagens que se oferecem a todo tempo. Eu olho as revistas nas bancas de jornal, Lavínia, e tento entender o que todas as revistas querem me dizer. Como elas querem que eu seja. Como esperam que eu queira ser. Que roupas esperam que eu vista com pretenções de que as pessoas penssassem de mim algo qualquer que eu quereria. Algo de relevante que eu não consigo especificar. Me perco prestando atenção nesses ínfimos detalhes, Lavínia e pensando sobre o que eles podem querer me dizer. Se estão lá pra me fazerem pensar em algo, pra pensar algo que alguém espera que eu pense, da forma que alguém espera que eu pense, pra no final acabar pensando em comprar algo. Algo qualquer. Eu penso se posso pensar diferente do que esperam que pensae. mas acabo comprando coisas. Quando presto atenção não sei se comprei o que esperavam, pelo motivo que esperavam, mas acho que esperam que eu compre qualquer coisa de qualquer forma, esperam que desde que eu compre mereço ser pensado por alguém.
Compro coisas e coloco em cima da mesa e olho pra elas. Eu gosto de jogar coisas fora também. As vezes compro coisas e jogo fora no dia seguinte. Eu sei que não deveria fazer isso, mas eu só consigo ver o dinheiro como essa coisa que passa feito um rio. Gosto de gastar dinheiro com comida, por que me sinto aliviado que eu posso comer tudo e não estou gastando o dinheiro em algo que vai ocupar espaço no meu apartamento e depois terei que jogar fora e não gosto muito de fazer lixo, sabe. Todos esperam que você compre e que você crie lixo, quer dizer, quando eu como eu crio merda também (desculpe falar disso, Lavínia, mas achei importante.) Mas acho que minha merda pode se dissolver em algum lugar enquanto que todo esse plástico, sei que ele vai se acumular em terrenos nas margéns de alguma represa. E eu penso em cores, lavínia. Anoto as cores que me interessam e presto atenção como usam as cores pra me fazer pensar nisso ou naquilo, e pra fazer os outros pensarem em algo, principalmente comprarem coisas novas. Eles fazem uma coisa que todo mundo já tem, mas de uma cor nova, esperando que as pessoas todas comprem aquela coisa porque todos esperam que tendo a coisa da cor nova outros pensaram que também tem que fazer o mesmo. Funciona com tudo, roupas e computadores e eu tento entendder como eles escolhem essas cores. Tem as cores pra carros e celulares, pra roupas de criança e cartões de crédito, fraudas e tudo que você possa imaginar. Não gosto muito da maneira como espalham as cores por aí, sem muito respeito por elas. No meu apartamento tento organizar as coisas de modo a respeitar mais a consistência das cores. As vezes eu penso em números. Ninguém usa os números pra me fazer comprar, acho engraçado. Tem os preços, estampados nas promoções, mas são só valores flutuantes que não dizem nada. Eu tomo cuidado ao pensar em números por que sei que se pode ficar louco assim. Por isso anoto algo e tento pensar em outra coisa. A coisa que mais gosto de pensar é sobre o pensamento em si. Penso por que pensei isso e não aquilo, isso sempre acaba me levando a pensar em psicanálise. Eu me lembro de livros que lemos juntos não sei se ainda tenho algum deles. Daí penso na estrutura cognitíva em geral e na maneira como meus afetos distribuíram minhas memórias e nas redes de associações de pensamnetos e afetos, cores, sons, cheiros e outros detalhes sensoriais que parecem tão irrelevantes no dia-a-dia e formam a estrutura de nossas cadeias de rememoração.
Dessa forma acabo sempre pensando em você. É como se todas as associassões levassem a você. E eu já pensei muito sobre o que levou a isso e o que levou você a ocupar esse lugar. Já pensei em números e cadeias de números e cores e associacões de tons que me levaram a memórias que me levaram a você. E sobre como você veio a ocupar esse lugar e sobre por que você se estabeleceu no centro do meu intelecto.
Na verdade é injusto dizer você. Mas essa imagem de você. Essa imagem ultra-idealisada ritualmente rememorada de algo que algum dia vivi com você. Mas cada vez que eu me lembro acho que a imagem se torna mais idealisada e mais descolada do que você é ou foi de verdade. Os anos todos fizeram a imagem se descolar de você de verdade. Os anos sem te ver criaram essa você que não dvee ter muito em comum com o que quer que você seja hoje em dia. É por isso que eu te escrevo. Tudo mudou pra mim no dia em que me dei conta disso. Me dei conta de que se eu te encontrasse, provavelmente ficaria chocado entre o que me lembro e o que você se tornou (pois você, como eu, sempre foi essa coisa dinâmica em constante mudança). Nesse dia percebi que por mais que eu quisesse muito encontrar você, seria de alguma forma terrível se de fato isso acontecesse. Não é incomum que nossas fantasias sejam a pior coisa que nos possa acontecer. Creio que essa é a natureza delas. Então será melhor não nos vermos. Então escrevo para essa imagem, para que as palavras saiam de mim, para que eu possa reler e entender o que acontece em minha mente. Então, Lavínia, por esse motivo não enviarei nunca essa carta a você de verdade. Apenas guardarei ela numa gaveta com todas as outras e acho melhor providenciar para que alguém as queime no dia em que eu morrer. Por esse motivo, escrevo essas palavras todas para você, embora você nunca as va de fato ler.

Com todo o meu amor,


enviada por Mitsuo






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